Primeira favela a receber UPP no Rio de Janeiro, Santa Marta se anima e se colore com a Copa

12/06/2014 - 01:47
Com liberdade econômica e de expressão, comerciantes lucram com turismo e moradores pintam o morro de verde e amarelo

Fotos: Giuliander Carpes/ Portal da Copa#

Basta caminhar alguns metros pela rua Marechal Francisco de Moura, no centro do bairro de Botafogo, que logo se avista a favela Santa Marta, entre o Corcovado e a baía onde está o Pão de Açúcar. A localização é privilegiada, bem no meio dos pontos mais conhecidos do Rio de Janeiro, e o colorido das casas já virou tradição. Há três semanas, os moradores começaram a se mobilizar.

Já na abertura do Mundial, o verde, o amarelo, o azul e o branco terão se transformado nas cores de vários pontos da comunidade, que fica a dez quilômetros do Estádio Maracanã. E vai ter Copa ali também. O projeto social “Tudo de Cor para Você”, da empresa Coral, forneceu mais de 500 litros de tinta e 1.500 camisetas verde-amarelas. Os moradores fizeram o resto.

Caminhando pelos becos de Santa Marta é possível avistar bandeiras do Brasil, desenhos dos jogadores da Seleção, do Fuleco (mascote da Copa) e outras pinturas com as cores do país em muros, portas e escadarias. O barbeiro Anderson Silva do Nascimento, 31 anos, foi quem deu o pontapé inicial.

Ele abriu um salão no local conhecido como Mina D’água há quatro meses. Logo, teve a ideia de colorir seu estabelecimento comercial e tudo ao redor. “Aqui é um local muito conhecido pelas pessoas por causa da mina (fonte d’água). Conversamos com o Rodrigo (Mascarenhas, do projeto social) sobre a disponibilidade de tinta, que é um negócio caro. Ele nos forneceu a tinta e o pessoal se animou bastante. Ficamos um dia das 14h às 23h fazendo a pintura. Agora, só falta o Brasil jogar”, disse.

Mascarenhas conta que quando os moradores souberam da ideia começaram a bater na porta do projeto pedindo tinta para fazer algo parecido. A procura foi tanta que o material acabou. A Copa vai começar e ainda há pessoas aguardando em uma lista de espera para poder pintar as casas. “Distribuímos 55 kits com pincéis e todo o resto. As cores do Brasil estão por vários becos. Está ficando muito bonito”, afirma.

Segurança

Jamais a favela Santa Marta, que recebeu a primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Rio de Janeiro em dezembro de 2008, foi colorida desta forma. Segundo os moradores, a falta de apoio para comprar as tintas e a necessidade de pedir autorização para o tráfico de drogas, que mandava no local, eram os maiores obstáculos.

“Antes não havia a mínima condição de fazermos o que estamos fazendo agora. Só o fato de não ter tiroteio ajuda muito. Já precisei me deitar no chão, aqui na rua, por causa de tiro”, conta Salete Martins, 44 anos, moradora da comunidade há 36 anos. Ela é um dos sete guias de turismo do local, credenciados pelo Ministério do Turismo, e ajudou o marido a pintar uma barraquinha onde vende comida nordestina à noite.

Ponto Turístico

A pacificação ajudou o Santa Marta a se tornar um local de atração de turistas no Rio de Janeiro. Durante a Copa, o número de passeios feitos pelos guias dobrou. “Há muita procura e 70% é de estrangeiros. Se eu pudesse ficar no estande lá na entrada da favela acho que faria dois tours pela manhã e dois pela tarde. Temos cinco empresas de turismo na favela e não estamos dando conta da demanda. Normalmente são dois mil visitantes por mês aqui, mas, acho que na Copa este número vai chegar a quatro mil”, explica Salete.

A guia conta que os turistas fazem compras e experimentam outros aspectos da comunidade durante a caminhada de duas horas. E a economia local se fortalece. “A gente está conseguindo provar que favela é mais do que pobreza e violência. Temos história para contar, aspectos culturais, gastronomia e lojas de souvenirs. Todo mundo pode se dar bem com o turismo”.

Um dos beneficiados será o comerciante Antônio Custódio, 61 anos, dono do Bar do Tota. O estabelecimento, localizado na entrada da comunidade, vai ter um telão para transmitir os jogos do Brasil. “O pessoal está muito empolgado e acho que vai ser uma boa oportunidade para o comércio daqui”, comemora.

Giuliander Carpes, do Portal da Copa no Rio de Janeiro

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