Palcos da Fan Fest: Vale do Anhangabaú, uma história de desenvolvimento e desafio

02/09/2013 - 10:57
Conheça detalhes do local que vai abrigar a exibição pública oficial da Copa do Mundo em São Paulo

Um passeio pelo Vale do Anhangabaú, em São Paulo, revela uma contradição. Trata-se de um lugar central, cercado por estações de metrô, mas a tímida movimentação de pessoas no dia a dia nem de longe lembra a metrópole de 11,8 milhões de habitantes.

Ali estão alguns dos principais edifícios históricos da cidade, como o imponente Theatro Municipal e o edifício Matarazzo, atual sede da prefeitura da cidade. Este mesmo vale já foi palco de importantes manifestações políticas ao longo do último século.

Atualmente recebe grandes apresentações culturais e prepara-se para abrigar mais de 40 mil torcedores para as exibições públicas oficiais dos jogos da Copa de 2014. A sede da FIFA Fan Fest em São Paulo teve importância fundamental no desenvolvimento da maior cidade do país e enfrenta o desafio de sustentar essa importância não só em grandes eventos.

Foto: Portal da Copa/ME#

Foto: Glauber Queiroz/Portal da Copa#Carlos Faggin explica que o local exerceu grande influência no crescimento de São Paulo

Rio da diabrura

Anhangabaú é uma palavra de origem indígena que significa rio ou ribeirão do malefício, da diabrura, do feitiço. Os índios acreditavam que as águas daquele rio causavam doenças físicas e espirituais. Para os paulistanos do século XIX, o Vale do Anhangabaú tinha outro significado: era o principal obstáculo geográfico ao desenvolvimento de uma São Paulo ainda tímida, longe de ser a rica e populosa capital que todos conhecem hoje.  

“O centro velho da cidade era um triângulo, os vértices eram as igrejas de São Francisco, de São Bento e do Carmo. Esse triângulo é alto em relação aos vales, uma característica de defesa, muito portuguesa, para dificultar a chegada dos inimigos. Mas qualquer expansão teria que ser em direção ao vale, não tinha jeito”, explicou Carlos Faggin, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP).

São Paulo começava a se beneficiar da cultura do café e conhecia a expansão ferroviária. O Vale do Anhangabaú precisava ser vencido para que a cidade nova pudesse se desenhar. Dessa necessidade surgiu o primeiro Viaduto do Chá, inaugurado em 1892.

“Jules Martin era tipógrafo. Foi ele que idealizou a ligação do centro velho para o outro lado. A primeira ideia dele foi fazer um aterro. Depois ele viu que não ia dar certo, e passou para a ideia do viaduto. Naquela época era estrutura metálica, uma grande treliça de ferro. O local dos pedestres era de madeira. E muita gente tinha medo. Dá pra ver culturas de chá ao redor”, contou Benedito Lima de Toledo, também professor da FAU-USP e autor do livro “Anhangabaú”.

Esse viaduto testemunhou importantes transformações do vale. Uma delas coube ao paisagista francês Joseph Bouvard, responsável pelo projeto do Parque do Anhangabaú, elaborado em 1911.

“Com o parque, o vale ficou muito bonito do ponto de vista plástico. Foi a primeira intervenção paisagística que a cidade teve. O Bouvard fez uma proeza: com o rio já canalizado, conseguiu a  convivência de automóveis com pedestres. Mas o fluxo de carros sempre cresceu e o parque acabou se tornando um obstáculo para a expansão dos automóveis. Aí o projeto acabou indo embora para o aumento do sistema viário”, explicou Faggin.

Foto: Glauber Queiroz/Portal da Copa#O professor Benedito de Toledo escreveu um livro sobre o Vale do Anhangabaú e outros sobre a cidade de São Paulo

Centro simbólico

O parque perdeu para as grandes avenidas. O plano elaborado nos anos 1930 pelo engenheiro e futuro prefeito Prestes Maia fez com que o encontro das radiais mais importantes — atuais avenidas Tiradentes, 9 de Julho e 23 de Maio — fosse no  Anhangabaú, consagrando-o como o centro simbólico da cidade. O novo vale também foi marcado por outro Viaduto do Chá.

“Em 1938, teve uma concorrência pública para a construção de outro Viaduto do Chá. Quem venceu foi o arquiteto Elisiário Bahiana. O novo viaduto tem inspiração Art Decô e um vão livre muito interessante”, contou Carlos Faggin.

O Anhangabaú ganhava cada vez mais em movimentação e importância. “Tudo que acontecia em São Paulo passava por lá. O vale foi beneficiado por um tratamento urbanístico privilegiado e o viaduto sempre foi referência importante. Era uma região tida como modernizada, o eixo mais importante da cidade, com uma grande ocupação por edifícios, palacetes requintadíssimos”, acrescentou o professor Benedito de Toledo.

Mas a cara que o Vale do Anhangabaú tem na atualidade foi resultado de outra transformação, ocorrida nos anos 1980. “A prefeitura organizou um concurso, eu fui do júri. O que fazer com o Vale? Ganhou o projeto do (arquiteto e urbanista) Jorge Wilheim e da (paisagista) Rosa Kliass, que tem uma laje em cima. O viaduto ficou mais baixo aparentemente porque subiu o piso. O projeto chamou a atenção porque liberava a área, não propunha nada que saturasse mais, deixaria caminhos livres nos diferentes níveis, para automóveis embaixo e pedestres em cima”, contou Benedito de Toledo.

Foto: Autor desconhecido/1917/Acervo Iconográfico do Museu da Cidade de São Paulo#O primeiro viaduto do Chá, inaugurado em 1892. O trabalho de ajardinamento do vale também pode ser visto

Foto: Antônio Câmara/1951/Acervo Iconográfico do Museu da Cidade de São Paulo#O Vale do Anhangabaú no início dos anos 1950, já com o novo Viaduto do Chá e grande movimentação viária

Foto: Camerindo Ferreira Máximo/1970/Acervo Iconográfico do Museu da Cidade de São Paulo#Desfile de Carnaval no Vale do Anhangabaú em 1970

Aberto por excelência

Com o novo projeto, formou-se uma imensa esplanada, o que favorece a realização de eventos com grande público. “É uma praça cívica, não tem igreja, isso é raro em São Paulo. Quando é acionada, como na Virada Cultural, ela responde, recebe a multidão”, explicou o professor Faggin.

Esses eventos, que hoje são principalmente culturais, já foram mais diversificados. “Aqui houve comícios imensos, diversas manifestações. O Anhangabaú era um local aberto por excelência. O desfile militar passava ali. Tome 7 de setembro, tome 15 de novembro. Era o lugar oficial de desfiles políticos, culturais, religiosos”, explicou Benedito de Toledo, acrescentando que as manifestações políticas atualmente ganharam um novo palco, a Avenida Paulista.

Se o Vale perdeu espaço como palco político, ganhou outros usos, como a exibição de jogos de futebol. Ele já esteve lotado em outros anos mostrando partidas de copas anteriores. O mesmo ocorreu na Copa das Confederações 2013, onde milhares de paulistanos se reuniram para ver os jogos do Brasil.

Fan Fest 2014

Além desse histórico de já reunir a população para assistir partidas da Copa, de acordo com o subprefeito da região da Sé, Marcos Barreto, o Vale do Anhangabaú foi escolhido para sediar a exibição pública oficial em 2014 por motivos como a centralidade e a facilidade de acesso por transporte público. A expectativa do subprefeito é que o local receba até 45 mil pessoas nos principais jogos.

“Faremos pequenas adequações na estrutura para que possa caber mais gente, mudanças pontuais. Também faremos uma reforma de piso e vamos retomar as fontes. A responsável pelo projeto é a SP Urbanismo e a previsão do início é para outubro, com conclusão prevista para março. Não precisaremos fechar o Anhangabaú em nenhum momento”, disse Barreto.

Ele estima que o valor investido seja em torno de R$ 4 milhões, dinheiro do orçamento da prefeitura para manutenção de vias públicas. “É uma reforma que deveríamos fazer de qualquer jeito, pela importância do vale”, acrescentou.

O telão principal será colocado no Viaduto do Chá, mas há a previsão de outros dois telões menores, um virado para a Praça do Correio e outro no Boulevard da São João, voltado para quem ficar na própria avenida.  Como boa parte da estrutura é de responsabilidade da FIFA, de acordo com Barreto, caberá à prefeitura a colocação de elementos como as grades, os banheiros químicos, e a responsabilidade pela segurança do local.

“Ainda estamos orçando, mas imaginamos que, com a venda de espaços adicionais – de marketing e publicidade –, a gente possa cobrir, se não tudo, pelo menos uns 80% desse gasto. A alimentação vai ser concessão, mas em um modelo também com possibilidade de receita para a prefeitura”, explicou.

Assim como nas outras sedes, além dos jogos, haverá apresentações culturais. Barreto disse que a programação vai incluir grupos paulistas, aproveitando a oportunidade para difundir a cultural regional.

Planos de ocupação

Se o Vale do Anhangabaú tem uma clara vocação para grandes eventos como a exibição dos jogos, falta-lhe ocupação no dia a dia. Segundo Barreto, há planos para que o vale se torne, também no cotidiano, um espaço para convivência.

“Uma das ideias é incentivar que haja quiosques de café, de bar, o que ajude agregar as pessoas. Ao mesmo tempo, temos os grandes prédios que não estão virados para o Anhangabaú. Queremos ver a possibilidade de ter nos térreos uma ocupação de comércio. Isso tudo é parte de um processo que ainda estamos discutindo”, disse. Outro incentivo, segundo ele, será a Praça das Artes, espaço cultural que está em fase de finalização e deve incluir, entre outras coisas, um auditório voltado para o vale.

“Que significado tem uma praça sem pessoas? Existe uma contradição na maior praça cívica de São Paulo. Sistematicamente o Vale do Anhangabaú desafia os paulistanos. Ele está neste momento nos perguntando: o que vamos fazer para melhorar isso? É fundamental fazer algo para devolver a este lugar a importância que ele sempre teve”, finalizou o professor Carlos Faggin.

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Carol Delmazo – Portal da Copa

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