Nelson Rodrigues – 100 anos: entrevista com Ruy Castro, biógrafo do cronista

20/08/2012 - 11:46
Para homenagear o centenário de nascimento do cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues, o Portal da Copa conversou com o escritor Ruy Castro, autor de Anjo Pornográfico, a biografia definitiva do criador da expressão “A pátria de chuteiras”

Foto: Arquivo Público do Estado - SP#Nelson RodriguesNesta quinta-feira (23.08), completam 100 anos que o escritor Nelson Falcão Rodrigues nascia em Recife. Filho de Mário Rodrigues e irmão de Mário Filho, ambos jornalistas, Nelson consumiu parte de seu talento em crônicas esportivas que marcaram época no Brasil, descrevendo edições do clássico Fla x Flu como batalhas históricas, e transformando os jogadores em figuras memoráveis.

O Portal da Copa conversou com o escritor Ruy Castro sobre a importância do dramaturgo para a crônica esportiva e para o futebol brasileiro. Castro é autor da biografia Anjo Pornográfico, sobre Nelson, e organizador dos livros com as crônicas de futebol escritas por Nelson: À sombra das chuteiras imortais e A pátria em chuteiras, ambas editadas pela Companhia das Letras.

“Quando Nelson começou a escrever regularmente sobre futebol, no começo dos anos 50, na ‘Ultima Hora’, a crônica esportiva já estava estabelecida no Rio, com dezenas de colunistas – no mínimo dois por jornal, e eram quase 20 jornais diários. Mas Nelson entrou em cena e fez do futebol uma continuação de seu teatro. Não dava para superar sua qualidade literária”, afirmou Ruy.

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Nelson levava aos leitores mais que uma descrição das partidas: ele classificava a objetividade como “qualidade dos idiotas”. Emitia opinião, criava jargões e fazia comparações dos atores dos jogos e das arquibancadas com personagens históricos e da literatura mundial. Criou o “possesso Amarildo, um “Pelé branco” que o substituiria em 1962, e comemorou os feitos da seleção canarinho de forma ufanista.

Em 1958, o título na Suécia, o primeiro Mundial do Brasil, foi uma redenção para além dos campos. “Se analfabetos existiam, sumiram na vertigem do triunfo. A partir do momento em que o rei Gustavo da Suécia veio apertar as mãos dos Pelés, dos Didis, todo mundo aqui sofreu uma alfabetização súbita. Sujeitos que não sabiam se gato se escrevia com x’ foram ler a vitória no jornal”, disse na Manchete Esportiva, em 12 de julho de 1958.

Em 1962, forjou esperança em um título que ficava mais difícil com a queda de Pelé e com um difícil encontro com a Espanha de Puskas pela frente. “Pois bem. A mesma fatalidade que derrubou Pelé, que escalou Amarildo, a mesma fatalidade, dizia eu, salvou a Espanha. Seu gol nasceu na última gota da partida e, ao contrário do que se pensa, foi bom. Um bicampeão não pode depender de nenhum México. Insisto: um bicampeão terá que levantar a Jules Rimet a mãos ambas, com o próprio amor e com a própria paixão. De mais a mais, o perigo viriliza, enternece e ilumina o Brasil”, escreveu para o Globo, em 5 de junho de 1962.

Já em 1970, o escritor foi às nuvens e voltou depois da vitória do Brasil sobre a Tchecoslováquia por 4 x 1, pelas oitavas-de-final. Com o título do artigo de O mais belo futebol da terra, Nelson disse: “Quanto ao gol de Jairzinho, abalou o campeonato do mundo. Driblou um, mais outro, outro mais, ainda outro e enfiou no canto. E a alma das ruas voou pelos ares. Eu vi a grã-fina das narinas de cadáver cair de joelhos, no meio da rua, e estrebuchar como uma víbora agonizante”, vaticinou para O Globo, em 4 de junho de 1970.

Leia a entrevista completa:

Foto: Divulgação#Ruy CastroQual a participação de Nelson Rodrigues, seu irmão Mário Filho e o pai Mário Rodrigues nos destinos do futebol brasileiro por meio da crônica esportiva?

O pai deles, Mario Rodrigues, não teve nenhuma participação, exceto abrir a Mario Filho as páginas de seus jornais “A Manhã” e “Crítica”, na segunda metade dos anos 20, para ele criar uma vibrante seção de esportes. Nunca até então a imprensa brasileira dera tanto espaço ao futebol. Mario Filho foi o primeiro a transformar os jogadores em figuras interessantes para o leitor. Nos seus textos, os jogos tinham algo de épico e os jogadores eram quase que cavaleiros andantes. Procurem nos sebos o seu livro O sapo de Arubinha, que editei para Companhia das Letras. Mais de 20 anos depois, Nelson, que até então tratara pouco de futebol, pegou a bola e a levou insuperavelmente adiante.

Qual era o momento da crônica esportiva na época de Nelson Rodrigues? O que ele trouxe de novo?

Quando Nelson começou a escrever regularmente sobre futebol, no começo dos anos 50, na “Ultima Hora”, a crônica esportiva já estava estabelecida no Rio, com dezenas de colunistas – no mínimo dois por jornal, e eram quase 20 jornais diários. Mas Nelson entrou em cena e fez do futebol uma continuação de seu teatro. Não dava para superar sua qualidade literária, principalmente nos seus textos para a “Manchete Esportiva” [1955-1960] – compilei esses textos nos livros À sombra das chuteiras imortais e A pátria em chuteiras, também para a Companhia das Letras.

Em que medida a dimensão que o futebol e a Seleção Brasileira tomaram no Brasil passam pelo trabalho e pela capacidade criativa da família Rodrigues, em especial de Mário Filho e de Nelson Rodrigues?

Mario Filho abriu os jornais para o esporte, não apenas o futebol, e conferiu a este um passado, uma lenda. Além disso, criou a mística do Fla x Flu. Nelson levou o futebol - e, com este, a Seleção - para a literatura. Tudo isto em jornais e revistas. Ou seja, alcançando o grande público. José Lins do Rego, por sua vez, era grande escritor, romancista etc, mas seus textos sobre futebol eram banais. O leitor percebia a diferença de Mario e Nelson para com os demais.

A criação de personagens e apelidos, as conexões com figuras históricas e as metáforas em profusão, características do estilo de Nelson nas crônicas esportivas, já eram comuns na época? Tiveram visibilidade popular?

Tudo foi coisa deles. E tiveram grande aceitação popular. As pessoas citavam os seus bordões, as suas frases. E ninguém se atrevia a copiá-los.

Ainda sobre o estilo de Nelson, ele foi capaz de consolidar um imaginário diferenciado no torcedor, em termos de conseguir aproximar a paixão clubística dos textos jornalísticos? Serviram de fonte ou parâmetro para gerações seguintes de cronistas da área?

Ninguém ligava para o fato de ele ser Fluminense – todos o liam do mesmo jeito. Além disso, era comum o jornalista ou locutor ter publicamente um time. Todo mundo sabia que Jorge Curi era Flamengo, que Luiz Mendes era Botafogo – e eram os grandes nomes do rádio. Nos jornais, a mesma coisa: José Araújo, de “O Jornal”, era Vasco; Otelo Caçador, de “O Globo”, era Flamengo; Armando Nogueira, do “Jornal do Brasil”, era Botafogo. Isso foi sendo deixado de lado pelas gerações seguintes, em nome da “objetividade” que Nelson tanto abominava.

É possível traçar um paralelo entre a crônica esportiva da época da primeira Copa do Mundo no Brasil (1950), mais literária e com a função de criar com o texto uma imagem mental dos lances e partidas, com a de 2014, com um jornalismo que precisa ser mais rápido e ainda conta com recursos multimídia?

Tanto naquela época como hoje, havia quem soubesse escrever e quem não soubesse. Além disso, no tempo da primeira Copa no Brasil, as notícias também circulavam com rapidez – os vespertinos, como “O Globo”, ”A Noite”, “Diario da Noite” e outros, tiravam várias edições por dia. E o país inteiro ouvia rádio, que estava sempre em cima do lance – as audiências eram de milhões. Quem será posto à prova na próxima Copa serão os repórteres. Aí, sim, veremos qual veículo terá mais garrafas para vender...

Assista a uma entrevista de Ruy Castro ao Portal Brasil

Tiago Falqueiro – Portal da Copa

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