Belo Horizonte é palco da grande zebra de 1950, Inglaterra 0 x 1 EUA

24/10/2012 - 17:19
Testemunhas da partida disputada há 62 anos relembram o ambiente e a repercussão na capital mineira do duelo no antigo Independência

Foto: Francisco Medeiros/ME/Portal da Copa#Edições do “Diário da Tarde” de junho de 1950, arquivadas na Gerência de Documentação dos Diários Associados, com destaque para a partida ente Inglaterra e Estados Unidos

Quando Plínio Barreto saiu de casa na tarde de 29 de junho de 1950, a expectativa era enorme. Finalmente chegara o dia do confronto entre a poderosa seleção da Inglaterra e o quase desconhecido time norte-americano. O jovem jornalista de 27 anos estava prestes a testemunhar uma partida de Copa do Mundo. Depois de várias visitas à obra do Estádio Independência, em Belo Horizonte, era a hora de tomar lugar nas arquibancadas do “Colosso do Horto”, como descreviam os jornais da época. E não faltavam apostas.

“Era grande a ansiedade em torno do `English Team´. Pensava nuns 6 x 0. Tinha gente que apostava em 10 ou 12 gols. A gente queria espetáculo”, conta Plínio, hoje com 90 anos.

No mesmo estádio, o também jornalista Afonso de Souza preparava o caderninho de anotações. Belo Horizonte recebeu três partidas do Mundial de 1950. A primeira havia sido no dia 26 de junho, quando a Iugoslávia derrotou a Suíça por 3 x 0.  Em 2 de julho, o Uruguai aplicaria uma goleada de 8 x 0 na equipe boliviana. Afonso esteve lá e cobriu os jogos para a imprensa local. Mas nada se comparou à partida entre Inglaterra e Estados Unidos.

“Tinha jornalista de tudo quanto é canto. A gente fazia entrevista com os jogadores estrangeiros, batia papo. Sempre aparecia algum intérprete para ajudar. Mas Inglaterra x EUA foi o que mais despertou interesse e sensação”, conta Afonso, também com 90 anos.

Quando o assunto é a famosa partida, a memória dos dois impressiona. Como os mais de dez mil torcedores mineiros no  Independência, Plínio também queria ver a chuva de gols dos ingleses. Mas a história foi bem diferente do esperado. Desenhou-se, naquele dia, o que ele considera a maior zebra internacional de todos os tempos.

Foto: Francisco Medeiros/ME/Portal da Copa#Plínio Barreto com o livro que escreveu na década de 70 sobre partidas memoráveis, especialmente do futebol mineiro. Jornalista dedicou um capítulo à “maior zebra internacional”

“Os ingleses ficavam dando passe para cá, passe para lá e nada. A gente pensava que não ia mais dar goleada. Eles começaram a ficar afobados e os americanos aproveitaram e começaram a atacar”, conta. A torcida mineira, então, decidiu mudar de lado.

“Como os gols não surgiam, aí passamos a torcer pelos americanos. É aquela tendência de torcer para o mais fraco. Quando o gol saiu, no fim do primeiro tempo, foi uma farra”.

Afonso conta que parecia uma comemoração de vitória brasileira. “Eles fizeram o gol e seguraram o resultado no resto do jogo. Quando acabou, a torcida invadiu o campo, carregou os jogadores americanos. Fizeram farra até amanhecer o dia. Eles desfilaram em carro pelo centro da cidade. Foram tratados como heróis”, descreve.

Foto: Francisco Medeiros/ME/Portal da Copa#Afonso de Souza na biblioteca particular. Todas as reportagens que escreveu em 50 anos de carreira estão guardadas em envelopes identificados por mês e ano

Aquele 1 x 0 tomou conta do noticiário. A grande zebra do “Colosso do Horto” virou manchete internacional. “Foi um resultado que deixou o mundo esportivo inteiro estupefato. Nem se sabia que tinha futebol nos Estados Unidos. A Inglaterra era a Inglaterra. E perdeu. Aquele jogo levou Minas Gerais para o mapa mundial. Belo Horizonte foi assunto no planeta”, diz Plínio, que duas décadas mais tarde escreveria o livro “Futebol, no embalo da nostalgia”, em que dedica um capítulo ao jogo memorável de 29 de junho de 1950.

Foto: Francisco Medeiros/ME/Portal da Copa#Cópias de páginas do jornal “Estado de Minas”, de junho e julho de 1950, com manchetes sobre a Copa do Mundo de 1950 no Brasil

Cidade movimentada
A cidade estava transformada. Plínio e Afonso contam que havia turistas de várias partes do estado e muitos estrangeiros. “Vinham para assistir aos jogos e para fofocar também, conversar com os jogadores. Eles gostam de papo, né? Todos que vieram eram comunicativos.”, relembra Afonso. Ele acrescenta que, naquela época, não havia tanta rigidez na concentração. “Eles ficavam mais à vontade. Tinha o freio da diretoria, mas de vez em quando soltava a turma. E os jogadores eram “assaltados” pelas meninas da cidade”.

Moradores e turistas marcavam presença no aeroporto quando as delegações chegavam. Ficavam na frente dos hotéis para ver a entrada e a saída de jogadores. Aproveitavam o contato com os estrangeiros na zona boêmia da cidade. “A Copa foi uma grande novidade. Os hotéis receberam muitos hóspedes, os bares encheram, todos se divertiram. A cidade era um entusiasmo só”, descreve Plínio.

Decepção
Os bons resultados do Brasil se juntaram àquela atmosfera de empolgação. A seleção canarinho não foi a Belo Horizonte, mas Plínio decidiu juntar as economias e comprar uma passagem para o Rio de Janeiro. Ele conta que foi ao jogo final da Copa no Maracanã. O resultado indigesto e inesperado causa emoções fortes até hoje. “O Brasil podia empatar que era campeão. Na fila pra comprar ingresso, já tinha jornal sendo vendido falando que o Brasil era campeão do mundo. Mas foi 2 x 1. Fiquei revoltado, decepcionado. Mas não chorei”, diz.

Plinío, no entanto, não condena o goleiro Barbosa. “O lateral esquerdo deixou o ponta direita passar livremente, ele chutou bem. Isso é futebol... A imprensa foi injusta. O Barbosa foi infeliz, mas não havia razão para sacrificá-lo. Isso acontece. E os gols que o Ademir perdeu? O Vavá? Ninguém falha sozinho”.

A nova chance de 2014
Sessenta e quatro anos depois daquela derrota, o país terá nova chance de coroar-se campeão disputando o Mundial em casa. Tanto Plínio quanto Afonso esperam que a história seja diferente.  “Primeiro, acho que a Copa vai gerar ainda mais empolgação, porque agora a cidade tem mais gente e as pessoas são mais informadas sobre futebol”, diz Afonso. Quanto aos jogos da Seleção brasileira, Plínio conta que não vai assistir a nenhum, nem na televisão.

“Fico muito emocionado. Estou com 90 anos, não vou bancar um meninão de 18. Meu coração não aguenta mais.”. Mas o Brasil não vai contar com a sua torcida? “Claro que vai. Eu sou brasileiro, menina! Vou torcer sem ver. O orgulho brasileiro é imutável”, finaliza.

Carol Delmazo – Portal da Copa

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