Histórias das Copas: 1982, o Mundial que nunca terminou para Falcão

16/10/2013 - 15:52
Aos 60 anos, volante da equipe de futebol aclamada pelo mundo diz que ainda responde sobre os porquês da derrota diante da Itália

Aos 60 anos, completados nesta quarta-feira (16.10), o ex-jogador Paulo Roberto Falcão ainda tem de responder, vez por outra, à pergunta: por que a Seleção perdeu a Copa de 1982? Questionamento que o persegue nas mais diversas situações, como quando estava fazendo o credenciamento para trabalhar como comentarista de TV no Mundial de 2002. O motivo foi o futebol envolvente apresentado por aquela equipe, com estilo de toques de primeira e ultrapassagens que encantou imprensa, torcedores e até adversários. Forma de atuar que, para muitos, foi herdada pelo Barcelona e pela seleção espanhola.

Fotos: CBF#O time de 1982 perfilado: (em pé) Waldir Peres, Leandro, Oscar, Falcão, Luisinho e Júnior; (agachados) Sócrates, Cerezo, Serginho, Zico e Éder

“Uma semana antes de começar a Copa na Coreia do Sul e no Japão, a seleção estava fazendo um amistoso e fui fazer o credenciamento. Dei o passaporte, duas senhoras viram meu nome, me olharam e perguntaram: ‘Por que vocês perderam em 1982?’ Nós estamos falando de 20 anos depois, de 1982 para 2002. Aí o Guardiola, quando o Barcelona ganhou do Santos, no Mundial de clubes de 2011, diz: ‘Não sei porque vocês estão tão curiosos e apaixonados pelo Barcelona, o meu pai já falava do Brasil de 1982".

De tanto ser questionado, Falcão tentou dar uma explicação mais autoral ao tema no livro “Brasil 82: o time que perdeu a Copa e conquistou o mundo”, lançado em dezembro de 2012. A publicação reúne depoimentos de todos os atletas que entraram em campo no estádio Sarriá, em Barcelona, em 5 de julho de 1982 (exceção de Sócrates, já falecido na época da edição do livro). Naquela data, a Seleção enfrentou a Itália, precisando de um empate para avançar à semifinal. Após os 90 minutos e três gols do atacante Paolo Rossi, o sonho tinha acabado: 3 x 2 para os italianos.

“Aquela seleção foi tão envolvente, apaixonou tanto as pessoas, que normalmente se busca alguma coisa para justificar o porquê da derrota, mas para aquele time foi difícil achar uma crítica contundente, alguma coisa que resistisse ao tempo”, lembra Falcão, em entrevista ao Portal da Copa. Para ele, o grupo foi vencedor, mesmo sem levantar a taça. “Foi uma seleção marcante. Isso, para a gente que jogou, não deixa de ser uma conquista, o nosso caneco, o reconhecimento”, disse.

Três campeões, uma vaga

Pela primeira vez na história, 24 países participavam de uma Copa. A Seleção estreou contra a União Soviética. A vitória por 2 x 1, de virada, veio no segundo tempo, com gols de Sócrates e Éder. A segunda partida foi diante da Escócia, um consistente 4 x 1, com gols de Zico, Oscar, Éder e Falcão. No terceiro duelo, contra a Nova Zelândia, goleada por 4 x 0. Anotaram Zico, duas vezes, Falcão e Serginho.

Na segunda fase, 12 equipes seguiram na disputa, divididas em quatro grupos. O Brasil caiu ao lado de Argentina e Itália. Eram três campeões mundiais e uma vaga na semifinal. “Ninguém esperava que o Brasil não passasse. Nem o Bruno Conti, que era meu “irmão” na Roma. Assim que a Itália ganhou da Argentina por 2 x 1, liguei para ele e o cumprimentei. E começamos a conversar sobre quando seria a nossa reapresentação na Roma. Ele disse: ‘Dentro da lógica, vou chegar antes’. Ele achava isso, como todo mundo achava”.

O Brasil venceu o clássico com a Argentina, que era a então campeã do mundo, por 3 x 1. A decisão de quem se classificaria para a semifinal ficou entre a “Canarinho” e a “Azzurra”.

#Falcão celebra o golaço contra a Itália: "Grito de desafogo"

“Gol-síntese” não foi suficiente

Precisando apenas de um empate, por ter melhor saldo de gols, a Seleção começou atrás no placar, com um gol de Paolo Rossi aos cinco minutos. Sócrates igualou sete minutos depois, numa arrancada que começa antes do meio-de campo, passa por um drible desconcertante de Zico e um passe perfeito para o Doutor conferir na saída de Zoff. Ainda na primeira etapa, Rossi pôs os italianos na frente.

O Brasil foi buscar a igualdade aos 23 do segundo tempo, num lance síntese do futebol daquela equipe. Júnior traçou uma diagonal da esquerda para a direita do ataque, driblou um adversário e rolou para Falcão, na ponta direita da área adversária. A defesa italiana estava bem postada, mas uma ultrapassagem em velocidade de Cerezo pelas costas de Falcão permitiu ao volante simular o passe e, num jogo de corpo, tirar três italianos da jogada. A bola ficou alinhada ao pé esquerdo de Falcão, na meia-lua. Ele chutou cruzado e venceu Zoff.

“Eu não tinha todo aquele chute no pé esquerdo, não tinha aquela força. Aquele gol foi um desafogo. Pensei: ‘Na pior das hipóteses vamos ficar no 2 x 2’. Foi um gol quase de liberação, de uma luta para chegar à semifinal”, recorda.

No entanto, o camisa 20 da Itália estava inspirado naquela tarde e anotou o terceiro dele e dos italianos aos 29 minutos. “Fomos em cima de novo, tivemos chances. Houve uma cabeçada do Oscar e uma do Sócrates. O Zoff fez milagres”. Ao todo, a campanha brasileira terminou com quatro vitórias e uma derrota, com 15 gols marcados e cinco sofridos.

#Capa do Jornal da Tarde no dia seguinte à eliminação: retrato do sentimento nacionalCatarse coletiva

Segundo Falcão, o sentimento no dia seguinte foi de abatimento geral. “A gente não tem noção. É como se tivesse acordado sem ter dormido. Parados. Cansados. Evidentemente derrotados. Mas a gente vai se mexendo, juntando os cacos. Estranhamente, foi a primeira e única vez que vi, nesse período como atleta, como treinador e como jornalista, a imprensa brasileira triste. Chocada. Derrotada como o time. Isso é raro. Por quê? Porque viveram com aquela seleção, se emocionaram. A seleção jogava um futebol bonito, vistoso. Isso fez com que a imprensa sofresse junto. Foi um baque”. A sensação teve o retrato visual imortalizado na capa do Jornal da Tarde, que estampou o rosto emocionado de um menino de 10 anos, vestindo a camisa da Seleção, apenas com os dizeres: Barcelona, 5 de julho de 1982.

Copas de 78 e 86

A grande frustração da carreira do ex-meio campista da seleção, do Internacional (RS), da Roma (ITA) e do São Paulo foi não ter sido convocado para a Copa de 1978, na Argentina. Na época, Falcão era bicampeão brasileiro com o Colorado e um dos melhores jogadores do país. Mas, segundo ele, desavenças com o técnico Cláudio Coutinho o deixaram fora da lista.

“Eu não tinha ido em 1978 por uma discussão que tive com o treinador, que infelizmente não está mais aqui, então não é agradável nem ético citar, mas achava que tinha condições. Houve envolvimento da ditadura. A comissão de um modo geral era militar”, diz Falcão. “O sentimento foi de frustração. Foi quando comecei a entender o que era o poder. Foi difícil, mas talvez não ter ido fez com que em 82 eu tivesse me saído, individualmente, muito bem”.

Falcão também disputaria a Copa de 1986, no México. A equipe ainda contava com atletas da geração de 1982, como Zico, Sócrates, Oscar e Júnior, além do mesmo treinador, Telê Santana. Em campo, o Brasil também foi eliminado nas quartas de final, desta vez nos pênaltis, diante da França de Michel Platini. Apesar de terminar em quinto, como em 1982, Falcão não alimenta o mesmo carinho pelo futebol apresentado pelo time.

“O Zico estava machucado, eu tinha me recuperado, mas estava começando a jogar, o Sócrates vivia problema nas costas. Era um time diferente, quatro anos depois. Tinha um desgaste geral”, relata.

Brasil em 2014

Treinador da Seleção Brasileira entre 1990 e 1991, logo na sua primeira experiência no cargo, Falcão analisou o atual momento da equipe de Felipão, que se prepara para a Copa de 2014. “Eu acho que a Seleção esteve muito bem na Copa das Confederações. Recuperou o prestígio com o povo e isso é importante porque a Copa vai ser no Brasil. Essa confiança que deu ao torcedor talvez tenha sido a melhor coisa. Isso dá ao jogador segurança e é fundamental para você vencer o lado emocional que é jogar em casa, quase que com a obrigação de ganhar. Não tem a obrigação de ganhar, evidentemente que não, porque vamos enfrentar seleções fortes, mas tem um peso forte jogar aqui”.

Para ele, a cobrança sobre a equipe diminuiu depois da exibição na final contra a Espanha. “A cobrança poderia ser muito maior, mas acho que diminuiu quando a seleção jogou bem, ganhou a Copa das Confederações e deixou uma marca forte, principalmente no jogo contra a Espanha. Não dá para ficar lembrando que a Espanha estava cansada, não interessa, mesmo que a Espanha estivesse bem, o Brasil teria ganho, porque fez uma partida excepcional”.

Falcão não faz planos para o futuro, mas tem uma certeza: quer participar da Copa de 2014, seja como comentarista ou técnico. “Tenho várias possibilidades: continuar no trabalho como treinador, voltar para a televisão, tem um leque de coisas que vou decidir quando terminar o ano. Vou tentar trabalhar naquele mês da Copa. Se puder assistir ao treino de alguma seleção, vale a pena”, diz. Recentemente, ele fez intercâmbio com outros treinadores como Cesare Prandelli, da seleção italiana, Vincenzo Montella, da Fiorentina (ITA), e José Mourinho, do Chelsea (ING).

Perfil

Nome: Paulo Roberto Falcão
Nascimento: 16/10/1953
Naturalidade: Abelardo Luz (SC)
Clubes: Internacional (1973 a 1980); Roma (1980 a 1985) e São Paulo (1985 a 1986)
Títulos: Campeonato Brasileiro (1975, 1976 e 1979); Campeonato Gaúcho (1973, 1974, 1975, 1976, 1978), Campeonato Italiano (1983), Copa da Itália (1981 e 1984), Campeonato Paulista (1985)
Seleção Brasileira: 34 jogos. Foram 25 vitórias, seis empates e três derrotas. Oito gols marcados
Como treinador: Seleção Brasileira (1990 a 1991); América do México (1991 a 1993); Internacional (1993 e 2011); Japão (1994); Bahia (2012)
Títulos como treinador: Copa Interamericana (1991); Copa dos Campeões da Concacaf (1992); Campeonato Gaúcho (2011); Campeonato Baiano (2012)

Ficha técnica

Roteiro e texto: Gabriel Fialho
Fotos e vídeo: Danilo Borges
Editor: Gustavo Cunha

» Clique nas imagens e confira a história das Copas de 1982 e de 1986

Portal da Copa

Notícias Relacionadas

Produções retratam a festa dos torcedores e a organização do megaevento esportivo
+
As duas equipes se enfrentarão em Singapura. Este será o quarto jogo do Brasil neste segundo semestre
+
Taffarel será o preparador de goleiros, enquanto Mauro Silva ocupará o cargo de assistente técnico, criado para ser rotativo. Andrey Lopes será o auxiliar
+
Coordenador geral de seleções, Gilmar Rinaldi, confirmou que o Brasil será comandado pelo treinador da equipe de base, Alexandre Gallo, nas Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro. Novos membros da comissão técnica serão anunciados em breve
+