Gérson: “Se tivéssemos o preparo físico atual, os melhores de hoje não levariam nem o material sujo de nosso treino”

03/12/2013 - 11:27
Em entrevista em vídeo, o Canhota de Ouro se emociona ao relembrar a conquista do tricampeonato, ressalta a qualidade técnica das antigas gerações e afirma que levaria Ronaldinho para 2014

Celular, óculos, caneta, papéis. Nas mãos de Gérson, os objetos se transformam em Clodoaldo, Rivellino, Pelé, Tostão e nele mesmo. A mesa de madeira passa a ser o campo de jogo e ele dá início a uma aula sobre o esquema tático que levou o Brasil ao tricampeonato mundial. Estamos em uma sala de reuniões da emissora onde o Canhota de Ouro participa de um programa esportivo. Antes de entrar no ar, Gérson conversa com o Portal da Copa e revive a conquista do Mundial de 1970.

“Naquele momento, a ficha não cai. É, mas não é. Passa o filme que tem início em 1968, quando a equipe foi armada: sacrifícios, família, viagens, pressão, contusão... Passa tudo ali”, recorda o ex-jogador, atualmente comentarista em TV e rádio. Gérson também compara o futebol de antes com o de hoje. “Se você pega a técnica de ontem e coloca no preparo físico e na tecnologia de hoje, sabe o que acontece? Os principais jogadores de hoje não levariam nem o material sujo de treinamento nosso e das gerações anteriores à minha”, afirma.

O Canhotinha fala da dificuldade que existia para se chegar à Seleção na época em que jogava. Relembra o caráter único de João Saldanha e explica o porquê da saída do técnico do comando da equipe nacional, poucos meses antes da Copa de 1970. Ao comentar o grupo que vai disputar a Copa de 2014, Gérson enumera os destaques da equipe de Luiz Felipe Scolari, mas diz que levaria Ronaldinho Gaúcho, do Atlético- MG. “Em um jogo você pode colocar ele para administrar, dar qualidade”. Confira os melhores momentos da entrevista:

Montagem sobre foto: Danilo Borges/Portal da Copa#

Seleção, um mercado inflacionado

Era muito mais difícil. Não é saudosismo. Eu, por exemplo: quando cheguei à Seleção Brasileira, tinha o Didi e, antes dele, Jair da Rosa Pinto, Zizinho... Como você vai jogar? Tem que ficar olhando e aprendendo. Eu cheguei junto com o Ademir da Guia ao juvenil, ele pelo Bangu e eu pelo Flamengo. Já aparecia Dirceu Lopes, um fenômeno, Rivellino... Hoje, para você jogar na Seleção, treinador convocou, é chegar lá, vestir a camisa e entra. Não tem ninguém chocando com você, batendo com você, pedindo a sua posição.

1962: o menisco da frustração

Teve muita frustração. Eu estava convocado, jogava pelo Flamengo, mas já tinha uma lesão no menisco. Aí, na véspera da convocação, rompi o menisco, fui desligado. Podia brigar ali, era o Mengálvio. Dava para a gente discutir... Gostaria de estar lá, naturalmente, ou pelo menos ter brigado pela posição, mas não tive esse privilégio.

O desgoverno de 1966

Nós estávamos treinando antes da estreia, e um inglês que jogava no time reserva me deu um bico. Minha perna inchou, tive que fazer tratamento. Não joguei o primeiro jogo, joguei o segundo. Ali estava tudo desgovernado. Entrou o primeiro time, modificou para a segunda partida, para o terceiro trocou todo mundo. Na verdade, foi muito uma Seleção política. Rodamos o país todo fazendo política. O único ensinamento que trouxe, até para os dirigentes de 1970, é que você não pode misturar política com o futebol. Nem futebol com política.

Saldanha: sem medo e sem emprego

O técnico trocou porque o Saldanha era outro tipo de treinador. O Saldanha foi treinador do Botafogo, de time de praia, jogador, esperto, malandro. Naquela oportunidade tinha que ter um homem como ele para administrar a Seleção. Era uma época de troca de governo, repressão, governo militar. Então colocaram ele, mas ele já tinha um problema com o governo, porque não tinha papas na língua, dizia o que queria e dane-se o que vai dar...como deu. O que aconteceu? Ele chegou e disse: “Meu time é esse”.

Aí foram apertando, sabiam desse problema de ter um papo solto, disseram a ele: “Saldanha, o presidente acha que tem que colocar o Dario para jogar”. Ele achava também que Dario era um grande jogador, mas ele já tinha Tostão e Pelé, e ainda tinha Jairzinho que podia jogar no meio, ainda tinha Roberto, ainda tinha Toninho Guerreiro. Ele falou: “Acho excelente, mas por enquanto, não”. Insistiram: “Mas o presidente quer”. E ele disse: “Tudo bem, posso até botar, desde que ele deixe eu escalar os ministros”. Isso foi uma bomba. Daí pra frente, tiraram ele.

Entrou Zagallo, uma outra personalidade, uma outra maneira de ser, um outro esquema. Saldanha gostava de dois pontas: era Edu e Jairzinho. Zagallo já não gostava. O ponta esquerda era o Paulo César e o Rivellino, que ele adaptou nessa função e, se precisasse, tinha o Edu. Trocou aí, só. A adaptação foi fácil. A movimentação era fácil, todo mundo sabia jogar. Todo mundo já se conhecia.

Os nós táticos do escrete

Eram quatro homens atrás, com apoio mais forte do Carlos Alberto, porque o Everaldo não apoiava muito. Mas se entrasse o Marco Antônio, aí, sim, ele apoiava muito. No meio, eu  Clodoaldo e Rivellino, que vinha. Mas, às vezes, jogávamos com cinco no meio do campo, porque vinham Pelé e Tostão, e só o Jair à frente. Quando a zaga vinha, Jair entrava na diagonal e eu lançava. Quando a zaga não vinha acompanhando Tostão e Pelé, nós jogávamos com os dois no meio. Às vezes, quando eu ia, o Rivellino vinha. Às vezes, quando eu ia e ia também o Rivellino, voltava Tostão ou Pelé. Fazíamos automaticamente, porque treinávamos muito.

Foto: Danilo Borges/Portal da Copa#

Lágrimas retroativas

Levamos o gol numa bobeira. Mas não deu medo, estava na conta. Sabíamos o time que tínhamos e sabíamos contra quem estávamos jogando. Sabíamos que podíamos tranquilamente mexer no esquema tático deles, e mexemos. Você espera alcançar aquilo, mas disputar o título é um negócio fora do comum. Naquele momento a ficha não cai. É, mas não é. Passa o filme desde 1968, quando a equipe foi armada: sacrifícios, família, viagens, pressão, contusão... Será que vai dar? Passa tudo ali. Você começa a conversar sobre tudo e mexe com a gente, né? É bom reviver, só não é bom pela idade, porque o coração começa a ficar fraco, muitas emoções.

A agonia de estar de fora

Para qualquer jogador que participou de uma Copa do Mundo, que ganhou ou não, é muito difícil assistir de fora. Lá dentro você extravasa, grita, xinga, leva pancada, dá pancada. Aqui fora, você guarda tudo. Você quer ajudar mas não dá. Isso acontece com os mais velhos: às vezes nem acompanho, troco de canal, porque sei como fazer e não dá para passar. Mas eles é que sabem lá dentro. A minha época era uma, e a deles é outra.

Aos craques de hoje, nosso material sujo

Futebol antes era 80% condição técnica e 20% de condição física. Hoje é ao contrário. Por isso eu digo: a gente sabe como faz, mas não podemos passar pra eles. Eles também sabem como vão fazer. A minha física era uma, o condicionamento cresceu mil anos. A tecnologia hoje de condicionamento físico é monstra, mas falta a técnica de antigamente. Imagina: você pega a técnica de ontem e coloca no preparo físico de hoje, na tecnologia de hoje: sabe o que acontece? Os principais jogadores de hoje não levariam nem o material sujo de treinamento nosso e das gerações anteriores à minha. Isso tecnicamente.

Os trunfos da Seleção de Felipão

Neymar. Thiago Silva é um destaque na zaga. Paulinho vai ser destaque, porque ele se mete. Gosto do Bernard, acho o Jô um bom jogador, inteligente dentro da área. O Oscar deveria jogar mais atrás, onde joga no Chelsea. O outro do Chelsea, o Ramires, poderia ser titular. Prefiro um meio-campo talentoso a um trombador.

De homem para homem, Ronaldinho tem vaga

Eu levaria o Ronaldinho Gaúcho para o grupo da Copa. Ele não dorme, bebe? Então chama, conversa olho no olho: “Quantos anos você tem? Está a fim de jogar a Copa?” Ele vai dizer: “Estou”. “Então, a partir de agora você está convocado. Papo comigo, homem para homem. Vamos lá”. Em um jogo, você pode colocar ele para administrar, dar qualidade, papear com os jogadores. “Ronaldinho, preciso de você, veja o que está acontecendo ali”. Seleção Brasileira não tem titular e reserva. É um grupo, são 23.

A diferença do fator casa

Eu acredito que o Brasil pode ser campeão porque vai jogar dentro do país. Tem arbitragem, sim, tem o povo, sim. Quando o torneio é lá fora, tem 10 mil brasileiros, se tanto, num campo de 70 mil? Aqui vai ter 80 mil. Faz diferença, pressão total, até para o jogador. Na nossa Seleção, hoje, o Felipão está misturando um pouco de técnica, porque alguns são bons, com muita condição física, por isso tem que ter descanso, e muita vontade, até por ser no Brasil e diante da torcida Brasileira.

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Carol Delmazo – Portal da Copa

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