Entrevista Especial: Pelé comenta preparação do país e exalta Dedé, Neymar e Lucas

16/05/2012 - 07:23
Vídeo: “Rei do futebol” fala sobre a Copa de 2014, explica o surgimento da mística da camisa 10, recorda histórias inusitadas da parceria invicta com Garrincha, lista seus principais marcadores, exalta o zagueiro Dedé e reforça crença em Neymar e Lucas

“Rei do futebol”, “atleta do século” ou, simplesmente, Pelé. Várias são as expressões para definir Edson Arantes do Nascimento, artilheiro maior da história do futebol, com 1.281 gols em 1.365 jogos. Escolhido pela presidenta Dilma Rousseff como embaixador da Copa de 2014, o ex-jogador conversou por mais de meia hora, em Santos (SP), com o Portal da Copa. 

Na entrevista, Pelé destaca as experiências que teve nos comitês organizadores dos Mundiais de 1994 (EUA), 2002 (Japão e Coreia do Sul) e 2010, na África do Sul. Com essa bagagem, afirma enxergar em 2014 uma boa chance de exaltar novas características do Brasil. “Todo mundo conhece o futebol daqui. Agora é a oportunidade de mostrar o país como um todo. Estamos no momento de aproveitar esse crescimento econômico e essa confiança que o resto do mundo está tendo no Brasil”.

Assista ao vídeo da entrevista:

Confira os principais trechos:

1950, 1958, 1962 e 1970
Pelé conta que, ao ver a frustração do pai, João Ramos do Nascimento, conhecido por “Dondinho”, com a derrota do país na final da Copa de 1950 para o Uruguai, em pleno Maracanã, prometeu trazer a ele o título. A promessa foi cumprida oito anos depois, quando, aos 17 anos, tornou-se o mais novo jogador a ser campeão do Mundial. “A derrota em 1950 foi um incentivo para, na Copa de 1958, eu dar o presente que tinha prometido ao meu pai”.

Ele relembra as quatro edições em que atuou pela Seleção em Copas do Mundo (1958, 1962, 1966, 1970), tendo marcado 12 gols em 14 partidas e conquistado três títulos. O maior artilheiro da equipe canarinha de todos os tempos, com 95 tentos anotados em 114 compromissos, exalta a preparação daquela que é considerada pela FIFA a melhor seleção de todos os tempos, a de 1970.

“Tivemos tempo de preparação e uma coisa importante foi a decisão do João Saldanha. Ele disse: não vamos levar quatro equipes, como na Copa de 1966. Vamos pegar os dois melhores times do Brasil e fazer um combinado. Depois vamos mexendo de acordo com a necessidade. E foi isso que ele fez. Pegou o Santos e o Botafogo na época, que eram as melhores equipes”.

Foto: CBF# Parceria com Garrincha
“Jogamos 12 anos e todas as vezes que estávamos os dois em campo, nunca perdemos. O Garrincha era um jogador que era muito individualista, mas para o time era maravilhoso. Todo time que jogava contra o Brasil ficava na retranca e precisava de dois, três para marcar o Garrincha, mais um, dois para marcar o Pelé. Aí os caras estavam ferrados”.

Ele ri ao lembrar-se de como corria, de onde estivesse, quando Garrincha pegava a bola pela ponta. Isso porque sabia que o botafoguense iria driblar dois ou três adversários. O problema, recorda Pelé, é que, quando ele chegava em velocidade para conferir a jogada, o ex-camisa sete dava mais um drible para trás e deixava os atacantes impedidos.

“Tem uma coisa que é engraçada que acontecia com o Garrincha. Quando a gente tinha o Didi, por exemplo, ele dava um lançamento lá para o Garrinha. Eu às vezes estava na defesa e eles lançavam.  Eu pensava: tenho que ir, porque o Garrincha vai driblar, vai passar, vai chegar à linha de fundo. Aí eu vinha com tudo e, quando estava chegando à marca do pênalti, o Garrincha driblava para trás. Aí a gente passava direto e tinha que voltar para sair do impedimento. Mas realmente ninguém conseguia marcar. Às vezes ficava um, dois e ele tinha um arranque  muito forte”.

Melhores marcadores
Pelé revelou qual foi o melhor marcador que ele já enfrentou: “Para mim o melhor marcador foi o da partida entre Santos e Botafogo de Ribeirão Preto, quando fiz oito gols”, brincou. Depois, destacou nomes como Dias, do São Paulo, Pita, do Comercial (SP), além dos consagrados Bobby Charlton, da Inglaterra, e Franz Beckenbauer, da Alemanha. Ele diz ainda que o italiano Giovanni Trapattoni o marcou apenas em um tempo de uma partida e ficou com a injusta fama de maior marcador do Pelé.

“Joguei contra grandes marcadores. Uns mais técnicos, outros mais viris. O Dias, do São Paulo, era cabeça de área, mas quando eu jogava no Santos o ‘desgraçado’ vinha sempre me marcar. Aonde eu ia, ele ia atrás. Era excelente marcador, um cara chato. Tinha o Pita, que jogou no Comercial de Ribeirão Preto. Esse marcava bem, tinha boa impulsão. No exterior, sem dúvida foi o Bobby Charlton, o inglês, um dos marcadores mais difíceis, porque ele jogava viril, mas tocava bem a bola, saía jogando. Quando a gente jogava contra a Alemanha, eles botavam o Beckenbauer. Ele era meio de campo, mas ficava me seguindo. Era outro excelente jogador. E teve um que virou mito, mas me marcou só uma vez, em meio tempo de um jogo amistoso. Era o Trapattoni, o italiano que todo mundo fala, mas eu estava machucado e só joguei meio tempo”.

Mística da camisa 10
Na época da Copa de 1958, não havia uma relação de respeito e devoção à camisa 10. Mas, por Pelé ter se destacado naquele Mundial usando a 10, criou-se, gradativamente, essa valorização do número e, junto, uma responsabilidade que alguns preferiram não assumir.

“Eu treinava com a camisa oito, que era a que eu jogava antes de ir para o Santos. E aí, chegou lá na Suécia e caiu a 10 para mim. Naquela época ninguém se preocupava com isso. Depois dessa Copa, aí sim, porque foi o garoto mais novo, foi a sensação. Então a número 10 passou a ser referência. Tem muita gente, agora, que tem preocupação de jogar com ela. O próprio Romário disse que queria a 11 porque a 10 é muita responsabilidade”.

Seleção em 2014
Na opinião de Pelé, há tempo para o treinador da Seleção Brasileira, Mano Menezes, preparar a equipe que disputará a Copa de 2014. “Ainda temos dois anos. O importante é fazer uma seleção de jogadores que merecem. Não uma seleção de jogadores protegidos por empresários, protegidos por cronistas que falem bem. Jogadores temos, só precisa organizar o time”.

Futura Geração
“Eu não vi o Pelé, mas vi Dedé”. Em meio a risadas e elogios ao novo ídolo do Vasco da Gama, Pelé conta como alguns torcedores brincam ao se referirem ao zagueiro da equipe carioca. Como não poderia deixar de ser, Pelé exalta Neymar, mas mostra preocupação com a “jóia”. “É um grande jogador, já tivemos grandes jogadores que apareceram com grande nome assim, mas depois na Seleção não renderam”. E ainda elogia Lucas, do São Paulo: “É um meio de campo que acho que tem potencial”.

Biografia
Edson Arantes do Nascimento nasceu em 23 de outubro de 1940, em Três Corações (MG). Mudou-se com a família em 1945 para Bauru (SP). Iniciou a carreira no infantil do Bauru Atlético Clube, o “Baquinho”, quando foi treinado pelo ex-jogador Waldemar de Brito e convidado em 1956 a ir para o Santos, onde ficou até 1974. Lá, disputou 1.116 jogos e marcou 1.091 gols. Ainda atuou pelo Cosmos, de Nova Iorque (EUA), de 1975 a 1977: 65 gols em 111 partidas. Foram 32 títulos e 20 artilharias oficiais colecionados durante a carreira.  

» Ficha Técnica
Roteiro: Abelardo Mendes Jr, Gabriel Fialho, Gustavo Cunha e Tiago Falqueiro
Texto: Gabriel Fialho
Entrevista: Felipe Zulato
Imagens: César Barbosa
Edição de imagens: Abelardo Mendes Jr e Gabriel Fialho
Transcrição: Victória Camara

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