Entrevista especial: Carlos Alberto Torres, o capitão do tri

23/01/2012 - 11:49
Em conversa com o Portal da Copa, o “Capita” contou bastidores do convívio com os craques de 1970, detalhou o histórico gol que selou os 4 x 1 na final contra a Itália e se mostrou pouco entusiasmado com a Seleção para 2014. “Sou otimista, mas realista. Hoje o Brasil não tem time. Na Europa, há seleções num estágio mais adiantado. A própria Espanha e a Alemanha. Pouca gente fala da Alemanha, mas para mim é a seleção que vai chegar como a grande favorita”

CONFIRA OS PRINCIPAIS TRECHOS

INSPIRAÇÃO NA COPA DE 1958
No primeiro campeonato mundial que o Brasil ganhou, em 1958, eu tinha 13 para 14 anos. Já entendia das coisas, já tinha o desejo, antes mesmo de o Brasil ganhar a Copa, de me tornar jogador. Naquela época, isso não era uma coisa muito apoiada pelas famílias. Os pais diziam: "futebol não dá camisa a ninguém". E realmente não dava. Mas eu já tinha o desejo de me tornar jogador. E, a partir daquela conquista da Seleção, tive mais desejo ainda de ter uma oportunidade de treinar num clube juvenil, de me tornar jogador. 

O MARACANAZO
O Brasil perdeu uma Copa dentro de casa como outras seleções já perderam também. Isso aí faz parte, muito, do fanatismo do torcedor brasileiro, que não admite derrota. Mas é coisa de momento. O futebol hoje ganhou outra dimensão. É logico que no Brasil existe ainda o fanatismo em torno da Seleção, mas acho que vivemos em outra época. Há de se levar em consideração que era a estreia de um estádio, o Maracanã, que foi feito justamente para aquela Copa. Então, evidentemente que todo brasileiro queria ver o Brasil ganhar, até porque tinha um bom time. Mas acho que essa coisa de “Maracanazo” não existe mais.

CONVOCAÇÃO PARA 1970
Era uma coisa muito difícil ter a oportunidade de estar entre os 22 jogadores. Na época eu me lembro que tivemos jogadores maravilhosos que ficaram de fora - Djalma Dias, Rildo, Dirceu Lopes, e vai por ai, Roberto Dias do São Paulo, Leônidas do Botafogo. Tínhamos grandes jogadores. Então, para fazer parte da Seleção, tinha que jogar muito futebol. Naquela época a Seleção era o lugar dos melhores. Hoje, não! O jogador às vezes não está nem jogando bem, mas é chamado porque está desde o inicio. Acho errada essa atitude. Eu mesmo, por exemplo, que até hoje tenho o orgulho de ser apontado como melhor jogador da posição de lateral direito de todos os tempos, teve algumas convocações em que não fui chamado. Por quê? Porque naquela época eu não estava bem no clube, o Santos. Isso para mim é justiça.

CONVÍVIO EM 1970
Nós tínhamos um convívio muito bom. A nossa concentração era mais rígida do que hoje. Ficávamos um tempo mais longo concentrados. Logicamente que é difícil manter do inicio ao fim, num grupo de mais de 40 pessoas entre jogadores, comissão técnica, massagistas, enfim, manter um ambiente bacana, sem confusão. Mas conseguíamos levar. Nós tínhamos, conforme você falou, grandes jogadores naquele grupo e que serviam de exemplo para os mais jovens. O Pelé, por exemplo, costumo dizer que foi um grande espelho para nós. Naquela época já era considerado o rei do futebol. E era um grande exemplo para todos. O empenho dele nos treinamentos, enfim, até mesmo fora do campo, nos hotéis, era de uma conduta impecável.

GOLAÇO NA FINAL
Aquela jogada nós sabíamos, orientados pelo Zagallo, sabíamos que aquela situação, em algum momento do jogo, podia ocorrer. Não foi uma situação de improvisação, de orelhada, no bom sentido. A seleção da Itália jogava de uma maneira que marcava homem a homem. Então a orientação do Zagallo era para que o Jairzinho procurasse levar o marcador dele, o falecido Fachetti, para o lado esquerdo. O Tostão chegava para lá, o Pelé chegava para lá, para abrir espaço.

Logicamente que isso não ocorre em todo momento do jogo. A gente sabia que poderia ocorrer. E ocorreu no final. Foi um momento em que a gente estava ganhando de 3 x 1. A vitória estava garantida. Faltavam três ou quatro minutos. Eu, que jogava lá atrás, poderia ficar lá. Mas eu lembrei na hora, o Pelé lembrou, todos lembramos da orientação do Zagallo. Então o Tostão recuou e tomou a bola do jogador italiano. E o Piazza poderia ter recuado para o goleiro para passar o tempo. Mas aí começamos um toque de bola porque o objetivo daquela seleção era sempre jogar para frente. E eu percebi que estava todo o time para o lado esquerdo e um espaço todo aberto na direita. Fui porque sabia. Quando o Jairzinho pegou a bola, fechou para a direita e deu para o Pelé, eu sabia que o passe viria. Foi uma jogada de toque de bola envolvente.

Pela jogada, muita gente aponta como o mais bonito de todas as Copas. Pela jogada, como foi trabalhada. Dizem que a bola subiu, né? Na hora nem vi. Depois, vendo o teipe em câmara lenta, a gente vê que a bola subiu um pouquinho. Mas acho que o bacana foi que a bola saiu baixinha. Não subiu nem meia altura. Foi baixinha porque, da maneira como cheguei à jogada, na passada certa, não tive que ajeitar para chutar. Por isso o chute saiu tão forte. Então, acho que mesmo se a bola não tivesse subido aquele pouquinho, faria o gol de qualquer maneira.

ERGUER A TAÇA
Ah, é uma alegria, uma emoção, um orgulho grande. A gente sabe que, naquele momento, o mundo inteiro está vendo você, como capitão, receber o troféu. E há uma grande diferença, na minha visão, de antes e depois de 1970. Antes todos buscavam a posse de um troféu, no caso, a Taça Jules Rimet. Era a posse definitiva. Hoje, não. Mas tive o privilégio de ser um dos cinco brasileiros a viver aquele momento em nome do país, em nome do futebol. É o momento mais marcante da minha carreira de jogador.

SELEÇÃO PARA 2014
A expectativa é grande. Todo mundo quer ver o Brasil campeão no nosso país. Mas temos de estar preparados. Será que o Brasil vai ganhar? Será que tem time? Sou otimista, mas realista. Hoje o Brasil não tem time. Daqui a dois anos, será que vai mudar? Temos que lembrar que nas últimas duas Copas tínhamos seleção muito melhor que a atual e não ganhamos. Agora, o fato de jogar no Brasil vai levar o time para frente, vamos ganhar? Não é assim, não. Temos de estar preparados e esperar com paciência para ver o estágio da seleção. Na Europa, hoje há seleções num estágio muito mais adiantado. A própria Espanha e a Alemanha. Pouca gente fala da Alemanha, mas para mim é a seleção que vai chegar como a grande favorita.

ESTÁDIOS PARA 2014
Os estádios estarão prontos, não sei se 100% preparados para realizar uma Copa do Mundo dos sonhos. O governo brasileiro não seria infantil de arcar com a responsabilidade de aceitar trazer a Copa sem os estádios prontos. Em relação a isso, sou muito otimista e não tenho receio nenhum. Vai estar preparado.

Portal da Copa

» Veja também o depoimento de Roberto Rivellino, campeão do mundo em 1970

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