Coleta seletiva em Belo Horizonte durante a Copa superou as 22 toneladas de material reciclável

16/07/2014 - 11:40
Estimativa é que o volume recolhido aumente a renda de catadores em cerca de 100%. Legado de inclusão social e conscientização ambiental também é destacado

Para dezenas de famílias e catadores de Belo Horizonte, o saldo da Copa do Mundo foi tão positivo que diminuiu até a tristeza pelas derrotas da Seleção Brasileira dentro de campo. Durante o período do Mundial, mais de 22 toneladas de material reciclável foram recolhidas no entorno do Mineirão e na Fan Fest. Além do retorno financeiro que esse volume gerou, a mobilização e o reconhecimento do trabalho foi o mais importante para os catadores da rede de cooperativas que atuou na cidade durante o evento.

“No jogo está todo mundo um pouco decepcionado porque perdemos, mas para nós a gente ganhou. Eu não estou muito decepcionada (com a Seleção), porque o Brasil não apostou somente dentro de campo. A coleta seletiva foi uma aposta também fora de campo e essa taça a gente está levando”, diz Ivaneide da Silva Sousa, presidente da Comarp (Comunidade Associada Para Reciclagem de Materiais da Região da Pampulha).

A Comarp faz parte de uma rede de 12 cooperativas que atuam na reciclagem de lixa na capital mineira. Durante o período da Copa, catadores da cooperativa trabalharam no entorno do Mineirão e no Expominas, onde foi realizada a Fan Fest. Após o recolhimento, o material era encaminhado para um galpão, onde passava por triagem e pesagem, antes de ser comercializado. “Todo o material que foi gerado, se ele era reciclável, ele foi aproveitado. A gente não perdeu nada”, conta Ivaneide.

Para ela, o resultado do trabalho feito durante a Copa do Mundo vai abrir portas para os catadores em Belo Horizonte. “A gente está muito feliz mesmo, todos os catadores. O negócio é nosso, é uma cooperativa que é de todos. Então a gente hoje acredita mais nessa oportunidade de trabalho, acredita que é um negócio promissor. Acho que é um legado que está ficando, desse evento, de novos caminhos para os catadores. A gente tem competência, a gente sabe fazer o nosso trabalho, conhece de materiais recicláveis. Então eu acho que é apostar nas pessoas certas”, afirma.

Mateus Baeta/Portal da Copa#Ernesto Xavier trabalha como catador há 12 anos. Para ele, o mais importante é manter a cidade limpa

Aspecto econômico e social

Além da questão ambiental, o trabalho de reciclagem de lixo feito pelas cooperativas de catadores gera renda para centenas de pessoas. “É um processo sócio-ambiental e econômico também, porque esse material gera renda para muitas pessoas. A gente vive só da renda da comercialização do material reciclável que é coletado na cidade. Então a gente quer agradecer muito a população”, completa Ivaneide.

Há 12 anos envolvido com coleta e reciclagem de lixo, Ernesto Xavier conta que deixou a construção civil, onde trabalhava como pedreiro, para apostar no cooperativismo. “Eu me dei conta de que é um serviço importante e bom para mim. Estou sobrevivendo numa boa, tranquilo. Em casa todo mundo aprova. É um trabalho bom para todos, estou me sentindo muito bem”, afirma.

A oportunidade de trabalhar em um evento como a Copa do Mundo e ter contato com pessoas de diferentes culturas foi destacada por Ernesto como fundamental para levantar a autoestima dos catadores. “Às vezes a gente estava em um evento e aquelas pessoas que vêm de fora e viam a gente trabalhando sempre falavam com a gente, davam os parabéns, falavam que está tudo legal. Eu acho que foi algo bom para nós e para as pessoas que vieram de fora também. Eles tiveram uma imagem muito boa”, orgulha-se.

Os catadores também destacaram outro aspecto importante do trabalho: a conscientização da população de Belo Horizonte para a coleta seletiva de lixo. “A gente acha que a maioria das pessoas vai abrir a mente para esse setor, para essa parte, que é muito importante para todo mundo. Não é importante só para a gente que é catador e depende disso, mas para todo mundo. Manter a cidade limpa é o mais importante. A cidade não, o país”, diz Ernesto.

“Acho que a maior importância de tudo isso é o reconhecimento do trabalho do catador. E tem a importância da consciência da população. A gente percebe uma mudança de hábito mesmo da população, que cada vez mais vem se conscientizando sobre a coleta seletiva. Há essa demanda grande de fazer a coleta em BH. Foi um trabalho compensador, deu muito resultado. A gente conseguiu manter a cidade limpa”, exalta Ivaneide.

A estimativa da cooperativa é que o trabalho realizado durante a Copa do Mundo implique um aumento de 100% na renda dos catadores. “A nossa renda média é R$ 1.100, a gente acredita que vamos passar dos R$ 2.000 por cooperado”, conta Ivaneide, lembrando que são necessárias 60 latinhas para um quilo de material. Um fardo, que tem 100 quilos e soma seis mil latinhas, é vendido por aproximadamente R$ 280.

Fotos: Mateus Baeta/Portal da Copa#Depois de passar  por triagem e pesagem, material reciclável é comercializado“Houve uma adesão muito grande por parte dos catadores, uma conscientização muito positiva em relação à cidadania. Outro fator importante é o estímulo e a motivação ao próprio munícipe a participar e colaborar. O legado principal é justamente essa inclusão dos catadores dentro do processo rotineiro da cidade no sentido da limpeza urbana e a continuidade desse trabalho para frente, o que vai nos permitir expandir o processo de coleta seletiva e de reciclagem nos próximos anos”, afirma Sidnei Bispo, superintendente de Limpeza Urbana de Belo Horizonte.

Limpeza urbana

O planejamento feito para a Copa do Mundo em Belo Horizonte não abrangeu apenas a coleta seletiva e a reciclagem de lixo. O evento demandou uma operação específica na gestão de resíduos e o balanço feito pela o prefeitura da capital mineira é positivo. Além do entorno do Mineirão e do Expominas, a região da Savassi, que virou ponto de encontro de torcedores de todo o mundo, também teve atenção especial na área de limpeza urbana.

Durante o Mundial, 70 garis se encarregaram da limpeza da Savassi. A quantidade de resíduos sólidos recolhidos na área saltou de meia tonelada para sete toneladas por dia. Nos eventos pós-jogo no Mineirão, foram 14 toneladas. Outros 40 garis atuaram limpando postes e retirando pichações de bancos, monumentos, telefones públicos e lixeiras.

O local foi atendido por quatro turnos de varrição, enquanto vias e calçadas foram lavadas pelo menos duas vezes ao dia, de manhã e à noite. A coleta domiciliar, que ocorre no período noturno, contou com reforços nos períodos da manhã e da tarde, na chamada Operação Rescaldo, para a retirada de sacos de lixo que não podiam ser recolhidos durante a noite nas ruas e avenidas fechadas para a festa.

Foram instalados 45 contêineres, com capacidade para 240 litros cada um, nos quatro quarteirões da área central da Savassi. Esses equipamentos foram constantemente monitorados, para que, tão logo ficassem cheios, pudessem ser esvaziados.

Quatro caminhões-pipa e um basculante atuaram na limpeza da região. Por dia, foram usados 150 mil litros de águia, 250 litros de desinfetante e 150 quilos de sabão em pó. No período da Copa, foram recolhidas na Savassi mais de 140 toneladas de lixo.

Sem contar o material reciclável, foram recolhidas no entorno do Mineirão cerca de 97 toneladas de lixo comum durante o período da Copa em Belo Horizonte. Na Fan Fest, foram mais de 12 toneladas de resíduos. No entorno do Expominas, mais 15,4 toneladas de lixo foram recolhidas.

Durante a Copa, diariamente, entre 8h e 20h, cinco viaturas da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) percorreram todos os corredores e principais vias de acesso da cidade, identificaram ocorrências e produziram fotos e vídeos, enviando, em tempo real, dados e imagens para o Centro de Operações.

Para a chefe do Departamento de Políticas Sociais e Mobilização da SLU, Clarissa Germana Pereira de Queiroz, os ótimos resultados obtidos pelos garis e catadores durante a Copa do Mundo reforçam a capacidade de Belo Horizonte para receber grandes eventos. “Vivemos em uma cidade com potencial turístico e o papel da população de perceber e valorizar os catadores e, acima de tudo, contribuir de forma solidária para a manutenção da limpeza é o grande legado que levaremos adiante”, garante.

Mateus Baeta, do Portal da Copa

Notícias Relacionadas

Mundial de futebol quebrou recordes históricos e se tornou o evento mais comentado do ano nas redes sociais em todo o mundo
+
Secretário executivo do Ministério do Esporte afirma que o aprendizado adquirido com o Mundial dará melhores condições para o Brasil enfrentar os desafios da preparação do maior evento esportivo do planeta
+
Evento “Copa 2014: legados para o Brasil” mostra resultados econômicos, culturais e de infraestrutura
+