Aeromovel em Porto Alegre é concretização do sonho de décadas de um gaúcho

25/03/2013 - 11:03
Nos anos 1980, tecnologia ganhou linha de testes em Porto Alegre e foi implantada em Jacarta, na Indonésia, onde está em operação há 24 anos. Inauguração do projeto em 2013, no estado natal de Oskar Coester, é aguardada com expectativa pelo inventor

Fotos: Danilo Borges/Portal da Copa#Oskar Coester e o aeromovel: "O veículo é leve e cabe muita gente. Qualquer veículo semelhante a esse no transporte ferroviário pesa de três a cinco vezes mais"

O dia 20 de abril de 1989 ainda está vivo na memória de Oskar Coester. Foi a data da cerimônia de inauguração da primeira linha comercial do Aeromovel no mundo. O cenário era Jacarta, a capital da Indonésia. Durante oito meses, um anel de 3,2 km,  seis estações e três veículos foram construídos para o a primeira partida, naquele dia. Ao lado dos embaixadores, do presidente do país e demais autoridades, o gaúcho, filho de alemães, participava de tudo, quase sem acreditar.

“Eu pensava: o que um cara de Pelotas veio fazer aqui? Eu rezava a cada metro quadrado naquela primeira viagem. O veículo tinha ministros, presidentes e outras autoridades. 160 pessoas. No fim, por falha humana, teve uma freada brusca. Um pequeno incidente, mas tratei de falar com o diretor do projeto e saber o que aconteceu. Não atrapalhou a cerimônia. E depois daquele primeiro trajeto, já se passaram quase 25 anos sem nenhum acidente”, conta Oskar, inventor da tecnologia e presidente da Aeromovel Brasil S/A, empresa com sede em São Leopoldo (RS).

O Aeromovel chegou à Indonésia por intermédio de Lee Rogers, um economista americano que conheceu  Oskar Coester, entusiasmou-se com a tecnologia desenvolvida no Rio Grande do Sul e a apresentou aos indonésios, que investiram na novidade. Mas, no Brasil, o caminho para a realização da operação comercial do Aeromovel foi um pouco mais longo. 

Da inquietação à tecnologia

#Clique na imagem para ver o infográfico completoOskar Coester estudou construção de máquinas e motores na escola técnica de Pelotas nos anos 50. Depois entrou na Escola da Varig, onde especializou-se em mecânica e eletrônica aeronáutica. Trabalhou na empresa por muitos anos e testemunhou a transição para a aviação a jato.

Ele abriu a própria empresa na década de 60, com a produção de intercomunicadores para empresas. Na sequencia, passou a produzir sistemas de comando para a construção naval e, mais recentemente, a empresa rumou para a automação industrial. Paralelo a tudo isso, uma questão incomodava Oskar.

“Eu tentava entender: porque a gente consegue vencer a distância de Porto Alegre até o Rio de Janeiro em pouco mais de uma hora e demora mais tempo que isso para chegar ao aeroporto? A mobilidade urbana me incomodava. A gente precisava de uma maneira de ter via expressa exclusiva, fora do alcance desses obstáculos a baixo custo. Isso que levou ao conceito do Aeromovel”, diz Oskar Coester.

As primeiras inquietações e pesquisas surgiram ainda no fim dos anos 50, mas o projeto foi retomado, de vez, nos anos 70. Os princípios que guiaram o trabalho de Coester foram a necessidade das vias elevadas, o uso do sistema roda/trilho, a praticidade da propulsão e a importância da redução do peso morto.

“Uma questão essencial que foi levada em conta é a relação carga útil/peso morto:  qualquer automóvel pesa em torno de uma tonelada e uma pessoa pesa em média 70 quilos, ou seja, com uma só pessoa no carro, você tem aproveitamento de menos de 10%. No Aeromovel, o peso morto do veículo é em torno do peso uma bicicleta. O veículo é leve e cabe muita gente. Qualquer veículo semelhante a esse no transporte ferroviário pesa três a cinco vezes mais, vazio”, explica Oskar.

A opção pelo sistema roda/trilho, segundo o inventor, é devido ao menor atrito, cerca de dez vezes inferior ao do sistema pneu/asfalto. Já a propulsão foi inspirada no barco a vela, só que num formato invertido. Os veículos são movimentados pelo ar gerado por ventiladores industriais colocados no solo, que controlam pressão, direção e velocidade do ar.

“Quando eu preparei a primeira patente, eu disse ao nosso agente “isso é tão simples que já deve existir”. E não existia. A Inglaterra foi o primeiro país a nos conceder a patente em 1978. E vários outros países deram depois, como Japão, Alemanha, Estados Unidos, França e Brasil”, diz Oskar.

#Trabalhadores fazem os ajustes finais da obra em Porto Alegre

Testes

O primeiro veículo para testes foi criado em 1977, com o intuito de avaliar desempenho e comportamento energético. Três anos depois, a ideia fez sucesso na Feira de Hannover, na Alemanha. No início dos anos 80, foi construída uma linha piloto na Av. Loureiro da Silva, no centro de Poro Alegre, e um veículo foi instalado, com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) do Ministério da Ciência e Tecnologia. A primeira viagem com passageiros foi realizada em 1983, mas sem objetivos comerciais.

Desse início dos anos 80 até 2010, quando finalmente foi assinado o contrato com a Empresa de Trens Urbanos de Porto Alegre (Trensurb) para a construção da linha comercial na capital gaúcha, muitos testes e pesquisas se sucederam. Contratos com órgãos públicos e outras instituições começaram e terminaram, dificuldades surgiram, mas Oskar persistiu.

“Toda mudança é sempre difícil. Se pegar a história da aviação, por exemplo, os ingleses fizeram funcionar o primeiro motor a jato em 1930. O uso a aviação foi no fim dos anos 50, com o escaravelho. Ou seja, demorou quase 30 anos. Isso é assim. A gente não pode olha só para o umbigo, tem que olhar mais longe, tem que ir adiante”, conta o inventor.

Os testes na linha da Av. Loureiro da Silva para aprimorar a tecnologia ainda acontecem, em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e a Pontifícia Universidade Católica do estado. Mas as atenções agora se voltam para a via já construída entre o terminal 1 de passageiros do aeroporto Salgado Filho e a Estação Aeroporto do metrô da capital gaúcha. O fim da obra se aproxima e Oskar mal pode esperar para mais uma inauguração, só que desta vez em casa.

“Pra mim, a inauguração da linha em Porto Alegre vai ser emocionalmente muito forte, por tudo que aconteceu ao longo desses anos. Mas meu sentimento maior com certeza é de gratidão. Não fui só seu que fiz. Isso é um projeto brasileiro. O futuro vai  dizer se estamos no caminho certo”, projeta.

Leia também:

» Tecnologia 100% nacional, Aeromovel chega à reta final em Porto Alegre

» Infográfico: conheça detalhes do Aeromovel

Carol Delmazo – Portal da Copa
 

Notícias Relacionadas

Arena é a sétima construída para a Copa do Mundo a ter selo que atesta adoção de medidas sustentáveis na edificação. Capital gaúcha passa a ter dois palcos com registro do Green Building Council
+
Foi movimentado mais de um bilhão de reais na economia do estado, que recebeu 160 mil turistas estrangeiros e teve taxa média de ocupação hoteleira de 80%
+
Planejamento minucioso que foi feito para o Mundial deve servir de base para a gestão e operação dos aeroportos brasileiros, na opinião do ministro da Aviação Civil, Moreira Franco
+
Argentina, Chile e Uruguai são os países da região que enviaram mais visitantes ao país por avião
+